Em uma análise aprofundada, Julia Rossi, PhD em Geografia, Mestra em Educação e coordenadora da ONG Coordenadora do GreenFaith Brasil, reflete não apenas os travamentos políticos, mas a sofisticada máquina de desinformação que capturou a conferência, Julia une o rigor da ciência à urgência ética da fé para denunciar como dados foram manipulados e territórios invadidos por lobbies fósseis.
Julia Rossi
Chegando em Belém para a COP 30, fui recebida por um outdoor enorme logo no trajeto de saída do aeroporto: “Em 100 anos, as mortes decorrentes pelo clima caíram 96%”, acompanhado de um gráfico sem contexto e uma fonte de dados aleatória. Nenhuma explicação, nenhuma interpretação — apenas a mensagem crua, insinuando que a crise climática não é tão grave quanto afirmamos. Naquele instante, antes mesmo de entrar nos debates ou nas atividades da sociedade civil, percebi o tamanho do desafio que tínhamos pela frente. Ficou evidente que o negacionismo, e suas formas mais sofisticadas de desinformação, continua sendo uma das barreiras mais poderosas para qualquer avanço real. E é dentro desse cenário conflituoso que se desenrola a disputa desigual entre a indústria do petróleo, as comunidades que protegem seus territórios e as pessoas de fé que resistem para manter viva a esperança de um futuro justo.
De um lado, temos uma indústria global construída sobre a concentração extrema de lucros e poder; do outro, povos e culturas que há séculos mantêm relações de cuidado e reciprocidade com seus territórios. Entre esses mundos, pessoas de fé e suas comunidades têm se levantado como pontes, enfrentar a crise climática não é apenas uma questão técnica, mas também ética, moral e espiritual.
A COP 30 e o peso dos interesses fósseis
Após três anos fora de um país democrático, a conferência voltou a proporcionar um espaço vibrante de participação da sociedade civil: vigílias inter-religiosas, marchas pelo clima, encontros de juventudes, ribeirinhos e povos tradicionais. Esses momentos reacenderam a esperança num processo que, no entanto, permanece profundamente tensionado pelos interesses que moldam as negociações.
A COP 30 recebeu o maior número de lobistas do petróleo da história: cerca de 1.600 credenciais, número superior ao de todas as delegações nacionais, exceto a do Brasil. Segundo relatório divulgado na primeira semana, a cada 25 pessoas na zona azul, uma representava diretamente a indústria dos combustíveis fósseis.
Nesse cenário, não surpreende que não tenha sido possível aprovar nem mesmo a menção explícita aos combustíveis fósseis no documento final. Países como Arábia Saudita, Nigéria, Rússia e China bloquearam qualquer avanço nesse sentido, mesmo com mais de 80 nações defendendo a elaboração de um plano claro de transição.
Ainda assim, a Colômbia propôs sediar, em abril de 2026, uma conferência dedicada exclusivamente à construção de um mapa para a não proliferação dos combustíveis fósseis, uma luz que só existe porque a mobilização social se torna, a cada COP, mais articulada e resiliente.
O outro lado do poder: a máquina da desinformação
A indústria do petróleo não disputa apenas políticas públicas; disputa também percepções, narrativas e imaginários. Às vésperas da COP 30, os anúncios de petroleiras no Google Ads aumentaram 218% em relação ao mês anterior, segundo o Instituto Clima Info. São campanhas que não vendem apenas combustíveis, vendem dúvida, manipulam dados, constroem discursos que relativizam a urgência climática.
Greenwashing e desinformação tornaram-se armas centrais nesse jogo de poder. Combater essa avalanche de narrativas falsas é condição básica para que a justiça climática possa, um dia, deixar de ser promessa e se tornar realidade concreta.
Quando a fé se torna resistência
Durante a COP, no dia 16 de novembro, o GreenFaith organizou um encontro inter-religioso que reuniu lideranças de diversas tradições, cristãs, indígenas, muçulmanas, afro-religiosas, unidas em defesa do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis.
Ativistas compartilharam como seus territórios, corpos e espiritualidades são feridos pela expansão petrolífera. Líderes religiosos reforçaram que não existe cuidado espiritual possível quando o mundo material que sustenta a vida está em colapso. A sabedoria ancestral e a fé contemporânea convergiram para um mesmo chamado: proteger a criação, seja ela nomeada como floresta, rio, casa comum ou planeta.
Kumi Naidoo, presidente do tratado, resumiu o espírito desse momento ao afirmar:
“Não temos direito ao luxo do pessimismo.”
Essa frase ecoa com ainda mais força entre aqueles que acreditam. Porque fé não é passividade, é coragem. É o compromisso de agir mesmo quando o cenário parece escuro. E talvez seja exatamente essa coragem moral o que mais ameaça a indústria dos fósseis: a força coletiva de milhões de pessoas que afirmam que o lucro não vale mais do que a vida.
Um chamado ético para além da COP
A COP 30 termina sem o avanço decisivo que o planeta precisa, mas deixa claro algo essencial: enfrentar o petróleo não é só uma tarefa política ou tecnológica; é uma disputa moral e espiritual.
Em meio à crise climática, as comunidades de fé se tornam:
- guardiãs da verdade em tempos de desinformação,
- vozes éticas diante do poder econômico,
- pontes entre mundos que raramente se escutam,
- e, sobretudo, porta-vozes da esperança ativa.
Se a transição energética ainda não aconteceu, não é por falta de tecnologia, é por falta de coragem moral.
E essa coragem está emergindo, forte e diversa, nas comunidades de fé, nos povos tradicionais, nas juventudes, nos movimentos por justiça climática.
A luta contra o petróleo é, também, uma luta pela verdade, pela justiça e pela vida. E quando essa luta é movida pela fé, nenhuma máquina de lobby ou propaganda consegue apagar sua luz.
Julia Rossi é coordenadora do GreenFaith no Brasil e uma das integrantes da campanha Rio sem óleo (leia nosso manifesto aqui!)





